Um projeto inovador, batizado de "(NANO)BIORREFINARIA AMAZÔNICA: VALORIZAÇÃO DE RESÍDUOS FLORESTAIS PARA CONVERSÃO EM NANOMATERIAIS", promete revolucionar a forma como a Amazônia lida com seus resíduos florestais. A iniciativa, aprovada na concorrida chamada PROINFRA DESENVOLVIMENTO REGIONAL – NORTE, NORDESTE E CENTRO-OESTE 2024 do MCTI/FINEP/FNDCT, com um investimento robusto de R$ 7.954.302,89, visa transformar o que antes era descartado em valiosos nanomateriais biodegradáveis.
Imagine uma embalagem de alimentos feita com um filme transparente, resistente e biodegradável. Em vez de plástico derivado de petróleo, esse filme é feito com nanofibrilas de celulose. Este novo tipo de filme pode substituir plásticos convencionais em embalagens de alimentos; atuar como barreira contra oxigênio e umidade, prolongando a validade dos produtos; ser compostável, reduzindo o impacto ambiental.
Segundo os pesquisadores, elas também podem ser utilizadas na produção industrial têxtil, com o desenvolvimento de tecidos com propriedades antibacterianas e maior resistência como bioplásticos, além de embalagens sustentáveis, biocompósitos estruturais, adesivos, entre outros materiais de diversas utilidades, tanto cotidianas como industriais.
O cerne do projeto é a valorização de fibras de resíduos agroflorestais da Amazônia para a obtenção de bioprodutos nanoestruturados. O coordenador da iniciativa, Professor Dr. Matheus Cordazzo Dias, do colegiado de Engenharia Florestal da Universidade do Estado do Amapá (UEAP), destaca a importância estratégica dessa abordagem. "A princípio, faremos o desenvolvimento de novos produtos e testes em escala laboratorial, mas visando o seu sucesso, podemos avançar para a produção em escala industrial, após análise técnica e de viabilidade econômica da inserção no mercado”, afirma Dias.
O pesquisador explica que as nanofibrilas são estruturas com diâmetro aproximadamente 80 mil vezes mais fino que um fio de cabelo humano. Apesar de tão finas, elas podem atingir grandes comprimentos, o que lhes confere uma altíssima razão de aspecto (relação entre comprimento e diâmetro) – e essa característica resulta em propriedades mecânicas superiores às das fibras em escala macroscópica, garantindo ao material grande resistência.
Da Floresta ao Laboratório: Um Caminho para a Sustentabilidade
A equipe multidisciplinar da UEAP está focada em três objetivos específicos: otimizar o tratamento de diferentes tipos de fibras, produzir nanomateriais como nanofibrilas de celulose, nanopartículas de lignina e nanocarvão ativado, avaliando a qualidade desses materiais para o desenvolvimento de bionanocompósitos.
A Professora Dra. Carla Priscilla Távora Cabral, também de Engenharia Florestal, ressalta o potencial ambiental do projeto. “Podemos dizer que o projeto se insere em uma visão de médio a longo prazo, pois as transformações e exigências do mercado pela busca por materiais mais sustentáveis, por si só, já constitui um grande avanço na transição energética e na independência de combustíveis fósseis”.
Estamos falando em uso sustentável de recursos naturais e em reduzir a pressão sobre os recursos madeireiros. Cada resíduo florestal que transformamos em nanomaterial é menos uma árvore derrubada para outros fins. É um ganho ambiental enorme", explica a Professora Carla.
No aspecto econômico, o projeto promete impulsionar a bioeconomia local. "A instalação de um centro multiusuário visa impulsionar o desenvolvimento econômico e social do Amapá e de outros estados da região Norte, além da geração de novos conhecimentos e tecnologias", pontua Carla Cabral. Ela complementa: "Vamos contribuir para uma nova economia circular, trazendo novos conhecimentos no uso de materiais lignocelulósicos alternativos para além da madeira, analisando principalmente resíduos de outras cadeias produtivas".
Legado e Inovação para o Amapá
Além dos impactos ambientais, econômicos e sociais, o projeto espera gerar resultados concretos em termos de formação de recursos humanos, produção científica e infraestrutura de pesquisa. A Professora Dra. Monize Martins da Silva, do colegiado de Licenciatura em Química, destaca a criação do primeiro Centro Multiusuário de Apoio à Pesquisa do Estado do Amapá. "Este centro, com seus laboratórios de Biorrefinaria e Nanotecnologia de Recursos Florestais e de Análises e Prospecção Química, fortalece o nosso compromisso com a pesquisa científica, a inovação e o desenvolvimento regional, especialmente porque os recursos oriundos da FINEP nos permitirão investir em infraestrutura, formação de recursos humanos e no fortalecimento de laboratórios e grupos de pesquisa”, celebra Monize Silva. A pró-reitora considera, ainda, que a conquista amplia a visibilidade da UEAP no cenário acadêmico e científico, abrindo portas para novas parcerias, redes de colaboração e futuras captações de recursos.
O projeto está em consonância com diversos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, incluindo erradicação da pobreza, inovação e infraestrutura, redução das desigualdades, cidades e comunidades sustentáveis, consumo e produção sustentáveis, ação contra a mudança global do clima, e parcerias para a implementação dos objetivos.
Com uma equipe de pesquisadores altamente qualificados da UEAP, abrangendo Engenharia Florestal, Engenharia Química, Engenharia de Produção e Licenciatura em Química, o "(NANO)BIORREFINARIA AMAZÔNICA" se posiciona como um farol de inovação e sustentabilidade para a região amazônica e para o Brasil.
Da esquerda para direita, Professores: Dr. Tiago Marcolino de Souza; Dr. Agenor Sousa Santos Neto; Dr. Leonardo César de Moraes Teixeira; Dra. Carla Priscilla Távora Cabral; Dra. Monize Martins da Silva; Dra. Tayane Aguiar Freitas; Dr. Matheus Cordazzo Dias; Dr. Mário Vanoli Scatolino e Dr. João Antonio Pessoa da Silva (faltou o Dr. Francisco Tarcisio Alves Junior).